O Anel de Giges
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Querido leitor, que você esteja bem. Nosso tema hoje é sobre um mito: O anel de Giges.
Como você já deve ter percebido, gosto muito de metáforas e de mitos. Aqui neste espaço já falei sobre o Mito da Caverna, Ícaro, entre outros. Hoje, porém, quero levá-lo a refletir sobre o Mito de Giges, também escrito por Platão.
Giges era um simples pastor do antigo reino da Lídia. Certo dia, durante forte tempestade, houve um tremor de terra e abriu-se uma fenda no solo bem perto de onde ele estava. Diante dos olhos maravilhados, apareceu um grande cavalo de bronze, uma estátua oca, aberta em muitos lugares. Dentro dela, jazia o cadáver de um gigante, completamente despido, a não ser pelo belo anel de ouro que brilhava em sua mão. Giges pôs o anel no dedo, sem saber a surpresa que lhe estava reservada.
Dias depois, ocorreu a assembleia regular dos pastores, que deviam apresentar ao rei um relatório mensal sobre o estado dos rebanhos. Ali sentado entre os outros, Giges virou inadvertidamente a pedra para dentro e percebeu que tinha ficado invisível para os demais, que falavam dele como se ele não estivesse presente. Atônito, voltou a virar a pedra para fora, e voltou a ficar visível. Prudente, repetiu a experiência e o efeito foi o mesmo. Tratou então de convencer a assembleia a enviá-lo ao palácio real para apresentar o relatório. Assim que chegou à corte, Giges, usando seus novos poderes, seduziu a rainha, assassinou o rei e usurpou o trono, iniciando sua longa dinastia.
Esta estória fantástica do anel de Giges, Platão usou para questionar se os bons são bons por escolha própria ou simplesmente porque temem ser descobertos e punidos. Sobre este contexto, vale a pena citar duas frases de duas personalidades da filosofia grega. A primeira, de Platão, que disse: "Quer conhecer um homem; dê-lhe poder". A segunda vem de seu seguidor, Aristóteles, que comentou: "O homem guiado pela ética é o melhor dos animais; quando sem ela, é o pior".
A pergunta de Platão já provocou as mais diferentes respostas dos filósofos e escritores que pensam a Ética e a Política. Cabe aqui uma outra pergunta: E se fosse você que tivesse achado o tal anel da invisibilidade, o que faria? Estou me referindo a tudo aquilo que faria se pudesse ser invisível e, consequentemente, impune. Algumas pessoas afirmam categoricamente que cada um tem sua lista pessoal de pequenas e grandes maldades e de ajustes de contas por realizar. Será que há verdade nisso?
Claudio Moreno, professor e Doutor em Letras, diz que prefere ver neste anel uma bela alegoria do poder do pensamento, pois ele é seu lado invisível: "Ninguém pode ver o que se passa lá no fundo da minha mente; lá eu posso negar a lei e a ordem, realizar o proibido, odiar a quem eu não posso e amar a quem eu não devia. Lá sim, eu posso jurar que só vou obedecer ao que manda a minha vontade. Nas asas da fantasia, já cobicei muitas rainhas, já matei alguns reis, já usurpei alguns tronos – e isso, leitor, não foi nada perto de outras ideias terríveis com que às vezes me encanto. Recuso-me a jogar fora este anel e a viver como alguns que nem mesmo lá dentro são livres: temem suas fantasias e controlam seus pensamentos, como se todos nós, aqui fora, pudéssemos enxergar aquilo que estão pensando.”
E você, querido leitor, como é o seu mundo abstrato? Ele existe? Está ligado ao sensorial? Você viaja em seus pensamentos? Você é livre nesse mundo abstrato ou até nele você é controlado pela mídia, pelos políticos, pelo fanatismo religioso?
É assim como o mundo me parece hoje. E você, o que pensa sobre a invisibilidade do ser?
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Artigo veiculado na Rádio Som Maior Premium no dia 18/10/2011 e publicado no Jornal A Tribuna no dia 19/10/2011. Leia novos artigos nesse espaço a partir de março de 2012.