Confie em Deus, mas tranque sua porta (Prejuízo)
Fomos para a praia e deixamos as janelas da casa aberta, logo, fomos roubados. Minha mochila com tudo dentro já era, a bolsa da minha companheira já era; e bolsa de mulher você sabe, até paraquedas pode ter dentro dela. Computadores, máquina fotográfica, relógio, óculos, dinheiro, cartão de crédito, todos os nossos documentos... Fomos à delegacia fazer o B.O.
E o diálogo se iniciou mais ou menos assim: - Doutor, fomos roubados. - Como foi isso? - Nós estávamos na praia, os ladrões entraram na casa e levaram nossos pertences.
O policial me encarou e disse: “Vocês foram furtados, não roubados”. E com voz de autoridade continuou: “A diferença entre furto e roubo é a seguinte, se um estranho entra em sua casa e leva objetos de valor enquanto você dorme ou está na praia se divertindo, isto é, ausente, então isso é um furto que é o seu caso. Já, se você estivesse em casa e fosse forçado a entregar seus pertences, sua mochila, por exemplo, sob ameaça de uma arma ou até de uma seringa contaminada, aí sim seria roubo”.
No outro dia depois do furto, eu falei furto e não roubo, descobri que meu H.D. externo, onde meus escritos, incluindo ali um livro de mais de 300 páginas chamado ‘O Segundo Fogo”, bem como artigo científico da viagem a Israel, filmes, documentários, palestras e muitos outros documentos estavam “salvos” e no computador do Rodrigo que também foi roubado. Logo, muito se perdeu.
Fui caminhar na beira-mar para reorganizar meus pensamentos. Depois de uma hora de caminhada deitei na areia olhando para o céu azul e com algumas nuvens passageiras, refleti sobre o acontecido. Pensei: “momentaneamente estou sem documento, sem cartão de crédito, sem dinheiro, sem meus escritos”. E meus pensamentos foram longe: “será que quando morrermos, desencarnarmos, será assim? Não levaremos nada, apenas nós mesmos, nossa história, nosso acervo de experiências, vivências...? O que mesmo os ladrões nos roubam? Naquele momento o que eu mais lamentava era que o sossego da casa eles levaram. Nós deixávamos a casa aberta nas longas conversas na madrugada adentro e agora fica tudo trancado e conferido diversas vezes se as trancas estão bem cerradas. Outra coisa que nos levaram foi de viver num ambiente onde confiávamos em todas as pessoas e agora ficou a triste sensação que nossa intimidade foi invadida, que um animal estranho entrou em nossa toca e será preciso colocar tranca na porta. “Confie em Deus, mas tranque sua porta” é o nosso lema nesses dias. Vou confidenciar a vocês, nesse momento que escrevo, faz quase 30 dias que nos furtaram e até agora não fiz meus documentos nem cartão de credito, não comprei mochila, carteira para pôr documentos, dinheiro. Sabe que estou gostando? Ok, ok, amanhã mesmo preciso dar entrada nos papeis, pois preciso viajar e vai que alguém pergunta: quem é você? e eu tenha que mostrar os documentos para provar “quem eu sou através de um papel”.
Voltando a cena do crime. Eu e minha companheira Albany entramos na casa pelo portão lateral, ela com a bolsa de praia e por sorte, naquele dia, ela tinha levado os nossos celulares dentro e eu com duas cadeiras e um guarda-sol. Ela de pronto falou em voz alta: Querido, entraram em nossa casa, fomos roubados.
Minha atitude foi a seguinte: encostei as cadeiras no tronco de um coqueiro como de costume, peguei a mangueira e comecei a lavar as cadeiras enquanto reorganizava os pensamentos diante daquela situação. Pensei: “eles podem estar dentro de casa e por prudência vou ligar para a polícia”. Perguntei a ela: “Você está com meu celular na bolsa?” Ela não respondeu, apressadamente fui até a porta dos fundos e quando me aproximei descobri que ela havia entrado e já estava com a contabilidade quase pronta e já foi me passando os números: “roubaram os dois notebooks, o seu e o do Rodrigo, relógio, jóias... e assim por diante.
Quando falei para ela sobre o risco que havia corrido ao entrar na casa sem verificar se os larápios estavam ou não dentro de casa, ela se apavorou e ao me abraçar tremendo ela me disse: Meu Deus eu nem pensei nisso!
Em Filosofia Clínica tratamos disso nos tópicos 23, 24, 25, por ordem ação, hipótese, experimentação.
Nesse caso do roubo, quando recebo a notícia o meu pensamento (ação) buscou em meus acervos e alertou do perigo de morte e por isso ele me disse: Lligue para a polícia. E foi isso que eu fiz (hipótese) ao pedir o telefone celular.
O resultado que minha estrutura de pensamento colheu disso naquele momento foi a nossa segurança (experimentação), já que havia ameaça a vida, que para minha E.P. é o mais importante.
Podemos analisar esta situação com a perspectiva da estrutura de pensamento da Albany. Veja que ela procede de maneira diferente pulando o tópico 23 – Ação e indo direto em direção a Hipótese. Conversando sobre o assunto, ela confirmou que o pensamento naquele momento não foi outro senão verificar os bens que foram roubados (tópico 1 – como o mundo se parece) sem se preocupar com sua segurança pessoal (axiologia, valores).
Finalizando, por hora concluo que quase um mês depois nada foi recuperado, ninguém foi preso, porém já sei a diferença entre o que é um furto e o que é um roubo. Que coisa não!
Isso é assim para mim.
Estamos juntos
Beto Colombo